19 de janeiro de 2018


Veio de outro país, percorria as nossas ruas à procura de um poiso, encontrava um local sossegado onde pintava a cara, punha um sorriso e seguia para o principal largo da cidade.
Ali ficava, fazendo boquinhas, gestos e brincadeiras para que fossem caindo umas pequenas moedas na caixinha posta à sua frente.
O seu olhar azul mar, rodeado de marcas da idade ficava brilhante.
Fiquei a olhar para ele algum tempo, fotografei-o, dei uma moeda, apreciei o seu agradecimento e nunca entendi se o brilho dos olhos era de uma alegria modesta ou de um marejar de tristeza.

Ao seu lado um velho e sujo cão esperava pacientemente pelo seu dono.
Nunca mais esqueci estes olhos,  este homem de aparência sofrida vindo de um outro país.
Não é impresso em papel que este olhar se mantém preso a mim, mas na memória de um dia cinzento em que me cruzei com ele.

Não o voltei a ver, não sei o seu paradeiro, nunca soube o seu nome.
Não sei nada do homem nem do palhaço, mas aprendi que realmente pintar a cara é um bom modo de esconder mágoas e tristezas.

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